Memórias de um Nobre

———————————–\\(@)//———————————


Capítulo II – RUÍNAS GÉLIDAS

Cap. Anterior

Samoht, caído ao chão enquanto sangrava, esperava seu fim fúnebre. Olhava a chama na solidão daquela rua, quando um corvo descendeu do céu e pousou  ao seu lado. O corvo negro o observou, o encarou e, de alguma forma o encantou. As penas negras da ave se camuflavam pela penumbra da noite, estava lá sem se fazer ver. O corvo vivia despercebido… Então, diante do fogo, ele se indagou: Oh, vida de corvo… Será possível vivê-la algum dia?

E então, a ideia de viver lhe pareceu mais áurea do que a morte que o aguardava. Conformou-se que poderia deixar de lado tudo que construiu na Academia Arcana e viver entre as sombras, não na penumbra da sociedade mas na própria umbra de oblivion e se fazer, pela eternidade, esquecido. O corvo o olhou pela última vez e voou ao norte.

Com a pouca energia que lhe sobrava, ele se ergueu sustentando-se com um cabo de madeira e, mancando, tentou dar início a uma fuga de sua antiga vida na Academia Arcana. Um velho de aparência anciã dirigia uma carroça pela rua quando o viu.
-Oh, estás bem filho?- Perguntou ele assustado com tanto sangue no retalhado corpo de Samoht.

-Leva-me… Leva-me para  as terras mais distantes e solitárias que conheces…- Respondeu ele, cabisbaixo, com sua voz arrastada arranhando garganta.

O velho estava assutado mas não deixou de fazer o pedido a ele implorado, estendeu a mão e a ajudou a entrar na carroça. O velho estava pensativo e não deu a ordem de partida aos cavalos.

Mexa-se!- Gritou Samoht, seguido de um gemido de dor pelo esforço da voz.

Assim foi feito, a carroça o levou para fora da cidade e adentrou numa estrada que ia em direção norte. O velho nada disse, nada perguntou, apenas obedeceu o pedido de um moribundo e o guiou para longe, tendo como fim da viagem  uma gélida ruína de um castelo queimado. A carroça parou em frente a tal ruína, cercada por campos cinzas e infernais. Samoht, ao tentar descer, caiu da carroça na grama escura do campo. O velho imediatamente desceu e tentou ajudá-lo preocupado. No entanto Samoht o impediu estendendo a mão aberta em sua direção… Diante do nobre, o velho observava aquela mão melada de sangue e cheia de cortes  fazendo voar em sua imaginação um universo de suspeitas. Ele então rasgou a manga da camisa branca que vestia e a usou para estancar o sangramento do nobre.

– Espero que fique bem, jovem. – Disse o ancião, entrando na carroça e o abandonando.

Naqueles campos, o nobre Samoht arrastou seu corpo até atingir o muro das ruínas do castelo. Escorou-se sobre as gélidas pedras do muro e olhou o céu até que, milagrosamente, deu aos seus olhos a graça de dormir e sonhar. Por um segundo, antes de ser tomado pelo sono, Samoht sentiu um profundo medo de nunca mais acordar… Ele queria ser esquecido mas a coragem de morrer não era uma de suas virtudes.

Ruínas de um castelo gélido e negro

Ao nascer do sol, a claridade fez despertar Samoht. Com seu corpo dolorido, ele se levantou, tirou sua camisa e com poucos passos dirigiu-se a um pobre rio da região, próximo ao castelo. Nas margens, Samoht apoiou suas vestes que cheiravam a ferro devido ao sangue nelas impregnado… Então entrou nas águas do rio que o cobriam até a cintura e lavou suas feridas. No fundo de uma delas, ele notou um dente encravado na carne de seu braço. O jovem nobre o retirou com um pouco de sofrimento e, enquanto este escorregava por entre suas carnes para ser arrançado, acompanhado era por uma dor aguda que o fisgava…. Por fim, Samoht guardou o dente num bolso de sua roupa que estava jogada na margem do rio.

Com o término de seu banho, o nobre catou sua roupa e adentrou no castelo parcialmente desconstruído pelo tempo. Samoht andou nos interiores deste negro lugar e ao sair dele, aos fundos observou um amplo jardim. Tal jardim era escuro e sem vida por não contrastar sua cor com a parede cinza  do castelo e com as negras penas do corvo que novamente aparecia a Samoht. O corvo estava em repouso encima de uma grande caixa de cor cúprica no centro do jardim. Enquanto olhava o corvo, o jovem nobre compôs alguns pobres versos que lhe vieram a mente:

“Fez-me vir até aqui, diga-me que quer
Ante as sombras da rua, estavas lá!
Não sei quem és, corvo ou ave qualquer
Tanto eu queria aqui sozinho ficar

 Até na umbra da minha quase morte 
Sem dúvida guarda nosso temor,
Mas antes encontro um corvo, ao norte
Ah, que quer de mim? responda por favor!

 Grande é o azar, até aqui tu vens ver dor?
Oh, nem do ‘oblivion’ mereço viver
Raios! Deixa-me, corvo seguidor!

 …Isso que aqui tu traz, que é? Diga já
Com isso venha a mim, venha me dizer…
Oh, neste tesouro… Que nele terá?”

Ao corvo que comigo sempre está
Samoht Ongam, 10 de março de 1820

Samoht então se aproximou do corvo, eles se observavam reciprocamente em curiosidade. Mostre-me que está dentro desta caixa, corvo maldito… Disse ele mais uma vez, mas a ave permaneceu como estava. Após alguns segundos, ele abriu suas asas, como se quisesse voar, mas deu apenas um pequeno salto para o chão, saindo de cima da caixa. Eis que um sussurro lhe diz: Tu estás de volta…

Após isso, nada mais, a voz veio do além sem direção nem sentido perceptível. Samoht fingiu não tê-la ouvido e continuou a caminhar em passos lentos em direção a caixa. Quando nela tocou, sentiu como se retrocedesse anos em seu passado, mas a realidade era que ele não conhecia tal caixa e nem tais ruínas em que estava… Ele sentia um sensação paradoxal em que ele nada lá conhecia mas mesmo assim sentia um ar familiar. Será essa a sensação da loucura? Perguntou ele ao corvo, que nada respondeu.

Quando enfim abriu a caixa, lá encontrou uma chave dourada, sem nenhuma inscrição que a identificasse. De volta aos interiores do castelo, com a chave em sua mão, Samoht percebeu uma porta trancada. Com aquela chave, abri-la não foi um desafio… A porta dava entrada a um quarto um pouco escuro, mas confortável. Em suas laterais viam-se arcos romanos. Atrás dos arcos da direita, uma cama, dos da esquerda, um baú.

castelo negro interiores

Ele aproximou-se do baú a sua esquerda e logo, com um pouco de esforço, conseguiu abri-lo. Dentro dele, uma cartola negra, roupas formais e um monóculo dourado. Haha, que isso significa? Perguntou ele, rindo do que encontrara. Samoht então tirou a roupa suja de sangue que vestia e trajou aquelas estranhas roupas que encontrara. Pelo menos estas não cheiram e ferro, concluiu Samoht ao compará-las com suas antigas vestes. Quando novamente averiguou o baú, encontrou uma corrente de ferro, logo ele retirou aquele dente que guardava no bolso de suas antigas roupas e o prendeu numa argola da corrente fazendo um colar. Com este e o antigo colar de lua, que pertencia a seu irmão, totalizaram-se duais “joias” em seu pescoço. No entanto estes artefatos eram dignos de más lembranças que o encorajavam a isolar-se naquele lugar… Se o nobre Samoht retornasse a cidade, não teria nada lá, sua casa foi queimada junto com seu dinheiro e ele ainda poderia ser preso por causar aquele último incêndio se janeladescobrissem que ele foi o responsável… Nem mesmo a Academia Arcana o aceitaria, uma vez que ele não tem mais como pagar seus estudos. Sou um nobre falido, concluiu ele.

Samoht deitou-se na cama pensativo, quando ouviu então, um barulho em sua janela… Como se novamente não pudesse ficar sozinho, como se novamente algo, alguém ou alguma criatura o procurasse. Somente isso, nada mais…

———————————–\\(@)//———————————

Esse foi o segundo capítulo da série “Memórias de um Nobre”, uma história com leves toques de fantasia e steampunk. Desta vez, Samoht encontrou um novo lar e um novo amigo que o acompanha, mas apesar de tudo isso ainda não conseguiu tirar seu irmão de sua mente. A respeito do poema escrito por Samoht, me desculpo por não conseguir compor melhor, sou um escritor, não um poeta (pelo menos não um poeta experiente). Samoht, por outro lado, conhecia muito bem a métrica dos versos, milhares de rimas dentre outros talentos… Eu até tentei compor um soneto decassílabo em todos os versos mas não ficou tão bom, Samoht faria melhor.

Se você gostou da história divulgue o blog, comente o que acha da atual situação do nosso nobre aventureiro ou o que acha que acontecerá com ele.

Thomas Magno

Anúncios

4 opiniões sobre “Memórias de um Nobre”

    1. Obrigado pelo apoio cara, os comentários e a divulgação ajudaram muito o blog! Infelizmente, para fãs de Samoht, o próximo post não será sobre ele, falarei sobre jogos e RPG (estou com saudades deste assunto). A série de Samoht está prevista para ter mais três ou quatro capítulos. Te aguardo no próximo post!

Deixe um comentário :D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s