O Legado dos Ocultistas

Eis uma obra que uma amiga pediu para que eu escrevesse. Ela havia requisitado um romance mas não sei se pude satisfazê-la, não consegui me desapegar muito de Memórias de um Nobre para escrever O Legado dos Ocultistas. Perdoe-me… não era bem o que você me pediu mas eu gostei (por isso estou postando aqui). Obrigado pelo pedido!

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Cap. I – O MONASTÉRIO

 Em tempos distantes, um grupo de sacerdotes voltava para o monastério entoando cânticos em latim. Assim que passavam pelos arcos ogivais na entrada do local sagrado viam um grupo de jovens que faziam de lá um orfanato desde que foram deixados.

Irmão Grim preparava o que seria, naquele dia, um almoço. Simples era a comida preparada, feita com os mais baratos temperos e carnes. Para a felicidade dos jovens e sacerdotes, havia as carnes. Grim as servia aos jovens passando de mesa em mesa e, quando já terminava de servi-los, notou um ser menor conjurar sua sombra sobre o chão do monastério. Era uma criança fazendo sua presença onde nunca antes esteve. A porta estava aberta e, do portal, essa criança olhava de um lado para o outro sem nada dizer nem nome algum evocar. Mas logo, seu próprio nome foi chamado por outro ser. “Falco!”, dizia ele, vindo ao encontro da criança.

O mais velho que o evocara era um jovem magro vestindo trapos rasgados. O irmão Grim, estranhando a presença dos dois, dirigiu-se a eles observando-os. Em lentos passos ele os alcançou e, enquanto segurava seu prato de comida, agachou-se e pôde pergunta-los mais de perto:

– De onde vocês vieram? Ou melhor… Para onde vão?

Os jovens ficaram perdidos em seus pensamentos. Recearam responder que, na verdade, chegaram lá por acaso e que não tinham um destino certo. O irmão Grim compreendeu e lhes ofereceu a comida dizendo:

– Podem ficar conosco se necessário for. Não é muito, mas podemos lhes oferecer refúgio, Falco e…

– Graco- Completou o jovem que acompanhava a criança, com ar sério e pouco amigável.

monasterio

Com as palavras do irmão Grim, os recém-chegados entraram no salão do monastério, para se sentarem e receberem a comida. O mais velho, Graco, era magro e possuía um cabelo escuro, porém bagunçado, que necessitava de constante penteio com suas mãos ossudas e finas. Ele tinha por volta de catorze ou quinze anos… A verdade é que nem ele se lembrava de sua idade. Já o mais jovem, Falco, era pouco mais nutrido e se vestia com roupas menos surradas, era pequeno e não falava. Sua idade estava por volta de sete ou oito anos.

Alguns dias se passaram, quando uma das jovens que ali morava procurou Graco perdida em curiosidade. Ela tentou, num frustrante diálogo, aprender algo sobre ele. Enquanto ela sentava-se ao chão junto a Graco, perguntava sobre quem ele era, mas ele não a respondia claramente. A única resposta lá dita foi quando ela perguntou sobre Falco. “É meu irmão!”, disse ele abruptamente cravando nela um olhar de seriedade em defesa do irmão. Mesmo com a acidental arrogância de Graco, ela ficou alguns minutos ao seu lado, achando graça de seu ar. Eis que ela se levantou, prendendo o cabelo com um fio e se preparando para deixá-los.

– Espere!

– Que quer?

– Diga-me logo, pela imagem sagrada, qual o nome sob o qual tu és evocada?

A moça sorriu pela rima e o respondeu:

– Meu nome é… Elise. – Então, sendo esta a última palavra lá dita, ela deixou sua presença. As grosserias de Graco com Elise se perderam deixando lá um ar menos denso e tenso… Mas o mesmo não foi válido para os outros do orfanato do monastério. Decerto que, pra os irmãos Graco e Falco, a exclusão lhes era bem conhecida. Durante as refeições, eles se sentavam em um canto conquistado por eles, bem longe dos demais. Os irmãos não brincavam com os outros, preferiam ler antigos volumes de filosofia, em uma sede incomum por matar seus tempos livres. E mesmo com os gostos incomuns e solitários dos irmãos, eles ainda ganhavam a companhia de Elise em algumas horas. Era comum, para Graco, contar com ela para discutir suas teorias e filosofias, ou mostrá-la alguma composição poética, afirmando ser de algum autor renomado.

Algumas semanas se passaram e, emm uma madrugada, Falco despertou e deixou o dormitório sem acordar seu irmão. Ele ouviu o som de algo embaixo do chão em que pisava… Eram como o som metálico de algo se arrastando numa superfície sólida, mas estava baixo demais para afirmar isso. Falco andava agachado com cautela para não causar barulhos maiores, enquanto ia em direção à porta da escadaria que lhe levaria ao porão. Quando em tal local chegou, viu a porta trancada e um crucifixo nela. Falco cogitou entrar no quarto de um dos sacerdotes a procura de chave que destrancasse tal porta, mas o silêncio da noite decerto denunciar-lhe-ia. Eis que ele ouve uma voz jovial e feminina atrás dele dizer:

– Ei, por acaso procura por isso? – Era Elise, com os cabelos soltos segurando a chave na ponta dos dedos, com seu braço dobrado e a mão próxima ao busto.

Falco, como sempre nada disse, mas suas palavras não eram necessárias. Elise logo complementou:

– Também acordei por causa de um ruído estranho, é por isso que está aqui… Certo?

– …

– Eh, bem… Consegui esta chave mexendo nas coisas do Irmão Grim, não se preocupe, se devolvermos ninguém saberá!

Falco sorriu inclinando a cabeça para o lado e, esticando-se sobre a ponta dos pés, pegou a chave para destrancar a porta. Então ele adentrou lá, junto a Elise… A escadaria seguia formato helicoidal e descia uns três metros abaixo do chão. A passagem era estreita, no teto havia dezenas de terços e crucifixos pendurados… Na base da escada estava gravada uma espécie de estrela circunscrita com símbolos que lembravam antigos capítulos de ocultismo. Um ar húmido e gélido soprava em direção àquele lugar, mas antes que entrasse no cômodo que dava gênese aos ruídos, outra porta os esperava. Esta se encontrava igualmente trancada, mas a chave para abri-la era a mesma. Falco deu um passo para trás e, com os olhos molhados, receou. Elise pegou cuidadosamente em sua mão e a ergueu até a tranca, fazendo-o abrir. Os ruídos tornaram-se mais intensos, mas agora vozes podiam ser escutadas por detrás daquele portal.

E quando as duas mãos unidas destrancaram e abriram a porta, Falco e Elise ouviram melhor o som de uma corrente sendo arrastada. Na escura penumbra, puderam ver alguém vagando pelo escuro incerto da ampla sala que havia sido aberta…  Esse corpo andava devagar em trajetórias elípticas arrastando uma corrente.

Falco novamente se assustou e arrependeu-se de ter ido até lá, mas desta vez não teve resistência. Ele recuou andando de constas até colidir contra as pernas de um novo ser que estava atrás dele… Era Graco.

– Que fazem aqui? Não sabem que é proibido?- Disse ele, cabisbaixo sem ter notado o que estava na sala, bem em sua frente.

Devido à interferência da voz de Graco, tal ser fixou-se e parou de arrastar a corrente… Ele levantou a cabeça e observou diretamente Elise, cravando-a seus olhos transcendentais. “Os mortos arrastam correntes”, sussurrou Graco a si mesmo, pasmo ao ver aquela criatura incerta em meio às trevas. Aos poucos aquele ser espectral transpareceu sua existência até desaparecer na frente de todos.

Desde que aquele ser (ou não ser) cravou o olhar em Elise, ela silenciou-se. Em seguida, foi para seu quarto sem palavra alguma dizer.

– Ei, espera! – Reagiu Graco tentando, verbalmente, impedir a fuga dela…

Graco então tratou de botar seu irmão para dormir e seguiu para o quarto de Elise. Quando lá chegou viu a porta semiaberta, ele então a abriu com a ponta dos dedos e teve entrada num amplo cômodo onde nunca esteve… Era um luxo tremendo comparado ao dormitório em que dormia. Pasmo com o local, Graco observou que no vértice entre as paredes e o chão, estava um corpo encolhido com os braços segurando as pernas. Era ela gemendo e chorando ao canto de seu quarto.

– Elise, mas… Mas o que houve?

– Não, o problema é o que minha pessoa ouve…- Disse ela em meio a soluços. – Os mortos Graco, não ouviu o que aquele espectro disse?

– Não, não o ouvi mas… Ele já se foi. Não deixarei fantasma ou demônio algum conjurar sua presença em tua frente novamente! Serei eu, embora fraco e mortal, teu guardião… Não te assuste por espectro tal!

Então ele a abraçou e ficou lá com ela, até que ambos adormeceram. Na noite gélida, estavam dois corpos e duas almas entrelaçados no canto do quarto em recíproca guarda. Falco os espiava pela semiaberta porta e, assustado, deixou as proximidades do quarto de Elise e foi para o dormitório, de onde não deveria ter saído naquela madrugada.

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Thomas Magno

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