Arquivo da categoria: Samoht Ongam

Este é um jovem nobre e falido que, embora seja muito inteligente, é um pouco antissocial e anormal. Ele vive uma série de aventura e terror… As histórias sobre ele são cheias de enigmas escondidos no texto.

Analisaram Memórias de um Nobre!

Olá, aqui é Thomas Magno, o Dungeon Master e escritor que está fazendo este post.
Bem, hoje eu queria deixar aqui um texto que recebi de um escritor e poeta chamado António Corvo, em que ele analisou Memórias de um Nobre (todos os quatro capítulos incluídos). Eis o texto dele:

Oi Thomas, li os quatro capítulos. Bom, eu faço análises e críticas literarias profissionalmente, mas posso dar uma impressão do que li e algumas dicas. Antes de mais nada, eu direi o que sempre digo a todos que me encomendam consultoria e também nas minhas oficinas de escrita criativa: esta é somente UMA opinião entre várias outras que vão aparecer pelo caminho. Ok? Então vamos lá.

Primeiramente o que importa: gostei do tema e do jeito como você conduz a narrativa no plano da ideia, do conceito. De fato, acho mesmo que você conseguiu captar a essência da literatura gótica. Boa criação de cenários e contextos. Ou seja, você tem indiscutivelmente talento e agrada no gênero.

Vi, entretanto, alguns problemas que atribui a uma possível falta de experiência, portanto, são coisas absolutamente normais e que até já estejam resolvidas, já que você me disse que o texto tem tempo.

Há uns erros de gramática. Nada gritante ou que um bom revisor não corrija. O problema é que a pontuação trava um pouco a narrativa. Não flui bem em certos momentos. Existem palavras como “tal” e expressões como “após isto” que não são legais de jeito nenhum, matam a narrativa, ela fica muito recortada artificialmente. É preciso desenvolver mais essas passagens de tempo ou simplesmente passar para a fase de tempo seguinte, sem dizer que está passando, o leitor entenderá.

Há uma claríssima e evidente influência ao Corvo, do Poe. Isso não é ruim, todos temos influências. Eu mesmo sou influenciado por ele e não é pouca coisa, mas, se a obra não for diretamente ligada ou pelo menos declaradamente influenciada por um autor ou por uma obra, a transparência e a homenagem atrapalham. Você não vai querer que as pessoas enxerguem o Poe num livro seu, vai? Quer dizer, pelo menos não a ponto de esquecerem que estão te lendo e ficaram só com o Poe na cabeça. Então, cuidado.

Acho que a historia é boa o suficiente para ser mais longa, mais trabalhada, para ser mais literária. Ficou curta, foi rápida, e merecia mais detalhes> Você é um bom construtor de cenas e descreve bem os contextos. Trabalhe esse dom e essa facilidade.

Menção mais do que honrosa para o sensacional trecho “fazendo voar em sua imaginação um universo de suspeitas”. Muito bom mesmo!!! E não é do Poe, percebe?

Por fim: Thomas e Irmão Maldito são muito óbvios ao contrário. Tá certo, tinha o lance da Alquimia e tal… mas tava muito óbvio. Se ainda houvesse um espelho na história ou que fosse importante na história ou no quarto do Thomas e daí algumas coisas fossem ao contrário, como os nomes, tudo bem, mas assim, solto, foi fácil. Nomes normais funcionariam melhor. Mas, tudo bem, vou atribuir à inexperiência, é uma coisa legal das primeiras vezes que a gente escreve, eu sei disse, já fui jovem e já escrevi quando era jovem! rsrs. E também fui DM, então sei como são os primeiros passos.

Bem, mas o que interessa, repetindo, é que você tem o talento necessário para literatura gótica e eu gostei. É preciso só o suor literário mesmo, que vem com o exercício e com a reescrita. Ok?

Abraço pra ti.

Com isso eu o agradeci pela análise e concordei com a crítica. Não quero ser uma sombra do Poe, de fato não quero que o enxerguem em meu lugar (mas sua influência é indiscutível). Quanto ao Samoht, tenho motivos para ser Thomas ao contrário… No decorrer da história, eu me coloquei nela e fiz o personagem reagir como eu reagiria. Por curiosidade, eu tenho uma cicatriz n braço assim como Samoht, ele é meu reflexo na história, mas é realmente inútil citar “Oamri Otidlam” no texto. Fiquei muito feliz por ele tê-la analisado e por ter gostado. As críticas feitas são dicas para melhorar quando são bem feitas como estas. E realmente sou inexperiente quanto a narrativa, tenho só 15 anos e não sou nenhum escritor, sou só um garoto que gosta de contar histórias… Mas cuidarei para que sejam cada vez melhores.

Para quem não conhece o António Corvo, ele costuma postar poemas em páginas de escritores  e  em seu blog A Ilha do Corvo. Dê uma olhada lá depois, a poesia agrada muito os apreciadores. Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer os leitores e amigos que ajudaram na divulgação do blog e de nossas histórias. Fico feliz em tê-los aqui no blog do OAA.

OBS: Se você leu OAA e pensou em oxalacetato, dá um tempo e relaxa aí com o Ciclo de krebs ¬¬. Eu hoje a declaro como sigla para pra Our Age of Adventure.

Thomas Magno

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A última batalha das “Memórias” – Arte


Samoht6Eis uma pequena arte que ilustra a batalha de Samoht Ongam com o Corvo do Norte em nossa Saga. Bem… Hoje passei aqui somente para deixar este desenho com vocês (pois gostei muito dele), “só isso, e nada mais”. A cena deste desenho é bem curiosa por causa da expressão indiferente no rosto do nobre, mesmo tendo se ferido muito em batalha.  Abaixo segue o mesmo desenho, só que com uns efeitos de sobra e contraste um pouco mais fortes.
Samoht7

Bem, por hoje é só pessoal, muito obrigado por visitarem o OAA. Não se esqueçam de dar uma curtida na nossa page no facebook
https://www.facebook.com/ourageofadventure

 

Os Corvos

os cinco corvos noite2Olá, sou Thomas Magno, o mestre que lhe escreve este post! Eu deixo aqui a lista de capítulos da série Memórias de um Nobre (em ordem), para os que ainda não acompanham ou desejam reler.

Por mais bizarro que pareça, o capítulo zero deve ser lido por último. A ordem é: Cap. I, Cap. II, Cap. III e, por último mas não menos importante… O Cap. Zero. Ele é o “zero” pq conta o passado de Samoht, mas deve ser lido por último pois dá muitos “spoilers”! Quem já leu deve entender o por quê.

Thomas Magno

Memórias de um Nobre

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Capítulo III – A PENA DO CORVO

Cap. Anterior

Quando o nobre Samoht ouviu algo incomum na janela de seu quarto, ele logo levantou da cama olhando fixamente para o vitral. No entanto, ele nada viu, nada mais escutou. Decidido então a investigar o ruído que rompera seu sono, Samoht guardou num bolso de sua calça a chave de seu novo quarto.

Ao deixar as escuras paredes daquelas ruínas, que ele chamou de lar, ele olhou bem para a paisagem que o cercava. A frente daquele castelo em ruínas haviam campos, aos fundos um jardim morto e ao lado passava um rio pobre. Até neste fim de mundo alguém vem me atormentar, disse ele com ar de decepção. Ao observar, do lado de fora, a janela de seu quarto, uma ossada o esperava junto a um monte de cinzas e roupas queimadas.

-Mas… Que isto significa?- Perguntou ele a si mesmo. Curiosamente ele recebeu uma resposta inesperada.

– Tu vais morrer – Foi dito por uma fonte desconhecida… perto dele, estava somente o corvo que o seguia, logo atrás.

-Não tentes me intimidar! Estas ruínas são meu oblivion, são minhas e de ninguém mais!- Respondeu ao além, a um receptor desconhecido.

corvo1

Após isso, andou pelos campos nas proximidades de seu castelo até encontrar um pomar, que lhe forneceu o alimento do dia. Recolheu as maçãs numa cesta e as levou para as ruínas do castelo. Quando pela entrada do castelo ele passou, sentiu-se tonto… ele logo caiu ao chão com a visão embaçada e dificuldades para respirar. Desesperado, ele segurou fortemente seu peito e, ao olhar para sua mão, observou que estava impregnada por um pó de cor leve e pouco perceptível. Passou sua outra mão em suas vestes e percebeu que também se impregnara de um pó desconhecido.

-Enve… envenenadas estavam estas vestes… – Disse ele, tirando as roupas sujas de veneno, segundos antes de perder a consciência.

No entanto, não foi desta vez que Samoht foi beijado pela morte. Horas depois ele acordou com o corpo dolorido e notou, enquanto abria os olhos, um perfil humano em sua frente.

– Como tu consegues desviar tanto da morte?- Perguntou o ser humanoide andando em sua direção.

-Quem…Quem és tu?- Samoht perguntou, enquanto se levantava com esforço e terminava de tirar as roupas envenenadas.

-Sou o corvo que te segue, o Corvo do Norte… Naquela noite, fui eu que alterei o seu experimento de alquimia, eu botei fogo no castelo! Fui eu que salvei seu irmão e o criei para te matar… Eu envenenei estas vestes e fiz com que as encontrasse! Eu sou teu corvo, tua noite e teu fim!

– Mas, como pode? Disse o nobre samoht, reconstituindo suas energias e sacando o punhal guardado nas roupas que havia tirado.

– Reza a lenda que nesta região há uma família de nobres alquimistas… Em suas veias corre o sangue sagrado de magos anciões e, aquele que extinguir toda esta linhagem e beber o sangue de um deles tornar-se-á imortal.

Samoht finalmente recobrou sua energia. E olhava com ódio para figura humanoide a sua frente. Era um ser bípede e macérrimo, com seu corpo nú e coberto algumas poucas penas… Em sua face, um sorriso mórbido que lembrava a besta na qual seu irmão se transformara. Assustado, Samoht apontou o punhal a ele.

-Não seja tolo!- Respondeu o Corvo do Norte, abrindo seus braços. Entre o magro tronco e os braços daquela criatura, havia uma estrutura membranosa cheia de penas que se assemelhavam a asas.

A criatura voou na direção de Samoht fazendo ruídos animalescos com sua garganta. O nobre tentou acertá-lo com o punhal, mas com apenas com um golpe da criatura, Samoht foi jogado contra a parede atrás dele. O punhal caiu de sua mão… Com suas unhas, aquele ser reabriu as feridas no corpo de Samoht fazendo-o sangrar e gritar.

corvo do norte1

– Pare, criatura infernal!- Gritou o velho que outrora conduziu Samoht a estas terras. Ele chegou pela porta da frente segurando uma espada curta e a apontou para aquela criatura que se dizia “Corvo do Norte”.

– Como ousas trair-me?- perguntou o Corvo, soltando o retalhado corpo de Samoht ao chão.

-Voltei aqui para ver como ele estava o nobre, mas eu o encontro quase morto em suas mãos. Quando me pagou para trazê-lo aqui não me disseste que o mataria!

A criatura andou, na direção do velho… Este logo perdeu a coragem que teve ao desafiar o Corvo do Norte. Enquanto isso Samoht arrastou-se para pegar o punhal que deixara cair. O velho, amedrontado, abaixou vagarosamente a lâmina que segurava, mas o Corvo do Norte não o perdoou, com um único chute o fez voar e cair a metros de distância fora do castelo, nos campos que o cercava.

Quando o Corvo do Norte virou-se para trás notou que sua presa havia escapado, mas ouviu um sussurro ao pé de seu ouvido dizendo: “A terra será teu berço eterno, Corvo!” e sentiu uma lâmina congelante perfurar sua barriga… Era a lâmina do punhal de Samoht atravessando suas carnes e dando a ele o descanso eterno da morte.

– Eu poderia ter sido imortal…- Disse a criatura momentos antes de falecer. Quando o coração do Corvo do Norte finalmente parou de bater, seus irmão corvos invadiram o castelo quebrando as janelas e agrupando-se ao redor do corpo, chorando juntos a morte daquela criatura…

Samoht andou poucos passos na direção do velho e logo caiu inconsciente. Ambos estavam muito feridos, mas o velho conseguiu levantar-se e encontrar o nobre. Samoht estava quase partindo para outra vida, ele sangrava muito mais que da última vez. A morte se aproximava do nobre e trazia consigo uma corrente de ar frio que soprava naqueles campos umbrais.

O velho correu para sua carroça em busca de utensílios que pudessem ajudá-lo. Quando ele retornou e encontrou o corpo de Samoht, utilizou a bebida para limpar suas feridas e pressionou os trapos de tecido contra elas para tentar estancar o sangramento.

-Desculpa-me, não sabia do que aquele ser era capaz… Apenas achei que fosse um bom negócio! – Disse o velho, mas Samoht, inconsciente, não reagiu.

Horas se passaram e Samoht acordou na cama de um hospital em sua cidade, cercado por colegas da Academia Arcana. Quando os viu, todos desejaram saúde e lhe perguntaram o que ouve.

-Ah… Eu… Eu não me lembro- Mentiu o jovem nobre.

Quando todos se foram e Samoht se recuperou, ele recebeu uma carta do velho que o levara na carroça. O nobre abriu a carta e leu: “Depois de levar-te ao hospital, retornei mais uma vez ao castelo e encontrei alguns instrumentos de alquimia (em mal estado, se me permite dizer) e, no subsolo, encontrei um quadro de uma família de nobres. Eu trouxe estes objetos comigo e os guardei em tua casa” . Quando chegou no que sobrou de sua casa (queimada por um incêndio), sentiu um ar familiar naqueles aparelhos de alquimia… E mais, quando olhou o quadro dito na carta, ele percebeu que ele estava lá! Era um quadro de sua família que, por estar no subsolo, não foi queimado. Aquelas ruínas na qual Samoht se escondeu foi, um dia, sua casa.

Samoht recebeu uma pequena quantia em dinheiro fornecida por seus colegas, e foi convidado a morar junto a um deles. O jovem nobre estava emocionado com a comoção da Academia Arcana com o que houve, isto é, com o incêndio de sua casa e o ataque que sofreu. Para a surpresa do nobre, ele pôde confiar nos seus parceiros de classe…

QUATRO ANOS DEPOIS: Samoht se forma e se torna o mais prestigiado estudante de magia antiga do país. A alquimia, matemática, filosofia antiga e a metafísica lhe renderam-lhe o título de “Luz Arcana”. Junto a seus colegas de classe ele funda uma sociedade secreta chamada “Samoehtia” e, com o passar dos anos, Samoht Ongam tornou-se uma lenda.

FIM

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Pois é, este é o último capítulo da série “Memórias de um Nobre”. O nosso nobre Samoht enfim pôde descansar estudar em paz e, até onde se sabe, não foi atacado por criatura alguma. É com isso que me despeço do personagem Samoht Ongam… Foi muito bom escrever tuas histórias, jovem nobre…

Eu criei uma categoria aqui no blog chamada “Fan Art”. Caso algum leitor desenhista se interesse, mande para o meu e-mail:  thomasalexsilva@gmail.com (vou receber com prazer a sua contribuição, postarei aqui com certeza!)

OBS: Não se esqueça de assinar o desenho :3

Até a próxima caros leitores, se gostaram do conteúdo comentem aí embaixo e divulgue este blog e a série “Memórias de um Nobre”.

Thomas Magno

 

Memórias de um Nobre

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Capítulo II – RUÍNAS GÉLIDAS

Cap. Anterior

Samoht, caído ao chão enquanto sangrava, esperava seu fim fúnebre. Olhava a chama na solidão daquela rua, quando um corvo descendeu do céu e pousou  ao seu lado. O corvo negro o observou, o encarou e, de alguma forma o encantou. As penas negras da ave se camuflavam pela penumbra da noite, estava lá sem se fazer ver. O corvo vivia despercebido… Então, diante do fogo, ele se indagou: Oh, vida de corvo… Será possível vivê-la algum dia?

E então, a ideia de viver lhe pareceu mais áurea do que a morte que o aguardava. Conformou-se que poderia deixar de lado tudo que construiu na Academia Arcana e viver entre as sombras, não na penumbra da sociedade mas na própria umbra de oblivion e se fazer, pela eternidade, esquecido. O corvo o olhou pela última vez e voou ao norte.

Com a pouca energia que lhe sobrava, ele se ergueu sustentando-se com um cabo de madeira e, mancando, tentou dar início a uma fuga de sua antiga vida na Academia Arcana. Um velho de aparência anciã dirigia uma carroça pela rua quando o viu.
-Oh, estás bem filho?- Perguntou ele assustado com tanto sangue no retalhado corpo de Samoht.

-Leva-me… Leva-me para  as terras mais distantes e solitárias que conheces…- Respondeu ele, cabisbaixo, com sua voz arrastada arranhando garganta.

O velho estava assutado mas não deixou de fazer o pedido a ele implorado, estendeu a mão e a ajudou a entrar na carroça. O velho estava pensativo e não deu a ordem de partida aos cavalos.

Mexa-se!- Gritou Samoht, seguido de um gemido de dor pelo esforço da voz.

Assim foi feito, a carroça o levou para fora da cidade e adentrou numa estrada que ia em direção norte. O velho nada disse, nada perguntou, apenas obedeceu o pedido de um moribundo e o guiou para longe, tendo como fim da viagem  uma gélida ruína de um castelo queimado. A carroça parou em frente a tal ruína, cercada por campos cinzas e infernais. Samoht, ao tentar descer, caiu da carroça na grama escura do campo. O velho imediatamente desceu e tentou ajudá-lo preocupado. No entanto Samoht o impediu estendendo a mão aberta em sua direção… Diante do nobre, o velho observava aquela mão melada de sangue e cheia de cortes  fazendo voar em sua imaginação um universo de suspeitas. Ele então rasgou a manga da camisa branca que vestia e a usou para estancar o sangramento do nobre.

– Espero que fique bem, jovem. – Disse o ancião, entrando na carroça e o abandonando.

Naqueles campos, o nobre Samoht arrastou seu corpo até atingir o muro das ruínas do castelo. Escorou-se sobre as gélidas pedras do muro e olhou o céu até que, milagrosamente, deu aos seus olhos a graça de dormir e sonhar. Por um segundo, antes de ser tomado pelo sono, Samoht sentiu um profundo medo de nunca mais acordar… Ele queria ser esquecido mas a coragem de morrer não era uma de suas virtudes.

Ruínas de um castelo gélido e negro

Ao nascer do sol, a claridade fez despertar Samoht. Com seu corpo dolorido, ele se levantou, tirou sua camisa e com poucos passos dirigiu-se a um pobre rio da região, próximo ao castelo. Nas margens, Samoht apoiou suas vestes que cheiravam a ferro devido ao sangue nelas impregnado… Então entrou nas águas do rio que o cobriam até a cintura e lavou suas feridas. No fundo de uma delas, ele notou um dente encravado na carne de seu braço. O jovem nobre o retirou com um pouco de sofrimento e, enquanto este escorregava por entre suas carnes para ser arrançado, acompanhado era por uma dor aguda que o fisgava…. Por fim, Samoht guardou o dente num bolso de sua roupa que estava jogada na margem do rio.

Com o término de seu banho, o nobre catou sua roupa e adentrou no castelo parcialmente desconstruído pelo tempo. Samoht andou nos interiores deste negro lugar e ao sair dele, aos fundos observou um amplo jardim. Tal jardim era escuro e sem vida por não contrastar sua cor com a parede cinza  do castelo e com as negras penas do corvo que novamente aparecia a Samoht. O corvo estava em repouso encima de uma grande caixa de cor cúprica no centro do jardim. Enquanto olhava o corvo, o jovem nobre compôs alguns pobres versos que lhe vieram a mente:

“Fez-me vir até aqui, diga-me que quer
Ante as sombras da rua, estavas lá!
Não sei quem és, corvo ou ave qualquer
Tanto eu queria aqui sozinho ficar

 Até na umbra da minha quase morte 
Sem dúvida guarda nosso temor,
Mas antes encontro um corvo, ao norte
Ah, que quer de mim? responda por favor!

 Grande é o azar, até aqui tu vens ver dor?
Oh, nem do ‘oblivion’ mereço viver
Raios! Deixa-me, corvo seguidor!

 …Isso que aqui tu traz, que é? Diga já
Com isso venha a mim, venha me dizer…
Oh, neste tesouro… Que nele terá?”

Ao corvo que comigo sempre está
Samoht Ongam, 10 de março de 1820

Samoht então se aproximou do corvo, eles se observavam reciprocamente em curiosidade. Mostre-me que está dentro desta caixa, corvo maldito… Disse ele mais uma vez, mas a ave permaneceu como estava. Após alguns segundos, ele abriu suas asas, como se quisesse voar, mas deu apenas um pequeno salto para o chão, saindo de cima da caixa. Eis que um sussurro lhe diz: Tu estás de volta…

Após isso, nada mais, a voz veio do além sem direção nem sentido perceptível. Samoht fingiu não tê-la ouvido e continuou a caminhar em passos lentos em direção a caixa. Quando nela tocou, sentiu como se retrocedesse anos em seu passado, mas a realidade era que ele não conhecia tal caixa e nem tais ruínas em que estava… Ele sentia um sensação paradoxal em que ele nada lá conhecia mas mesmo assim sentia um ar familiar. Será essa a sensação da loucura? Perguntou ele ao corvo, que nada respondeu.

Quando enfim abriu a caixa, lá encontrou uma chave dourada, sem nenhuma inscrição que a identificasse. De volta aos interiores do castelo, com a chave em sua mão, Samoht percebeu uma porta trancada. Com aquela chave, abri-la não foi um desafio… A porta dava entrada a um quarto um pouco escuro, mas confortável. Em suas laterais viam-se arcos romanos. Atrás dos arcos da direita, uma cama, dos da esquerda, um baú.

castelo negro interiores

Ele aproximou-se do baú a sua esquerda e logo, com um pouco de esforço, conseguiu abri-lo. Dentro dele, uma cartola negra, roupas formais e um monóculo dourado. Haha, que isso significa? Perguntou ele, rindo do que encontrara. Samoht então tirou a roupa suja de sangue que vestia e trajou aquelas estranhas roupas que encontrara. Pelo menos estas não cheiram e ferro, concluiu Samoht ao compará-las com suas antigas vestes. Quando novamente averiguou o baú, encontrou uma corrente de ferro, logo ele retirou aquele dente que guardava no bolso de suas antigas roupas e o prendeu numa argola da corrente fazendo um colar. Com este e o antigo colar de lua, que pertencia a seu irmão, totalizaram-se duais “joias” em seu pescoço. No entanto estes artefatos eram dignos de más lembranças que o encorajavam a isolar-se naquele lugar… Se o nobre Samoht retornasse a cidade, não teria nada lá, sua casa foi queimada junto com seu dinheiro e ele ainda poderia ser preso por causar aquele último incêndio se janeladescobrissem que ele foi o responsável… Nem mesmo a Academia Arcana o aceitaria, uma vez que ele não tem mais como pagar seus estudos. Sou um nobre falido, concluiu ele.

Samoht deitou-se na cama pensativo, quando ouviu então, um barulho em sua janela… Como se novamente não pudesse ficar sozinho, como se novamente algo, alguém ou alguma criatura o procurasse. Somente isso, nada mais…

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Esse foi o segundo capítulo da série “Memórias de um Nobre”, uma história com leves toques de fantasia e steampunk. Desta vez, Samoht encontrou um novo lar e um novo amigo que o acompanha, mas apesar de tudo isso ainda não conseguiu tirar seu irmão de sua mente. A respeito do poema escrito por Samoht, me desculpo por não conseguir compor melhor, sou um escritor, não um poeta (pelo menos não um poeta experiente). Samoht, por outro lado, conhecia muito bem a métrica dos versos, milhares de rimas dentre outros talentos… Eu até tentei compor um soneto decassílabo em todos os versos mas não ficou tão bom, Samoht faria melhor.

Se você gostou da história divulgue o blog, comente o que acha da atual situação do nosso nobre aventureiro ou o que acha que acontecerá com ele.

Thomas Magno

Memórias de um nobre

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Capítulo I – OLHE PARA TRÁS!

Uma vez, em tempos distantes…Um jovem nobre chamado Samoht andava pelas estreitas ruas de sua cidade, enquanto voltava da Academia Arcana. Já era meia noite, a rua era iluminada apenas por uma tocha no final dela.
Samoht observava tal luz enquanto andava serenamente. Em sua mão esquerda uma xícara de chá verde para mantê-lo acordado madrugada adentro enquanto estuda, e na mão direita um livro de metafísica. Ele ia chegando ao fim da rua observando dois caminhos, uma rua bifurcada. Sua casa ficava a direita, e para lá ele tomava seu caminho, para lá ele iria e gastaria sua madrugada inteira estudando se não fosse interrompido por um sussurro.

rua escura

Oamri otidlam, murmurou uma pessoa com uma voz mórbida, arrastada e animalesca ao pé de seu ouvido. Samoht não compreendeu e se virou para verificar do que se tratava, mas quando olhou para traz… A escuridão da noite guardava a estrada de volta para a Academia Arcana, vazia a esta hora, nada mais… Isso não acabaria assim, com ele voltando de onde veio e gastando sua preciosa noite com tolices. Ele decidiu continuar em frente.

Samoht ignorou isso e continuou andando em direção a sua casa. E quanto lá chegou, viu que a entrada de sua casa estava destrancada, teria ele esquecido sua porta aberta? Samoht era inteligente demais para cometer tal descuido. O jovem nobre desconfiou de que sua casa havia sido invadida, seria isso possível? Samoht respirou fundo e adentrou em seus aposentos, logo na entrada via sua sala de estar, ampla, com um piano e uma mesa em lados opostos do cômodo.  Após escorar sua xícara e seu livro sobre uma mesa ele empunhou uma faca antiga que herdara de sua janela góticafamília, morta em um incêndio. Quem quer que esteja esgueirando-se em meus aposentos, revele-se! Gritou ele, na esperança de que alguém o respondesse. Samoht andou em direção a seu quarto, motivado pelo ruído de sua janela. Lá ele chegou, um cômodo simples, com nada mais que sua cama e uma estante. Quando ele olhou para a janela, acima de sua cama viu repentinamente ela se abrir e o vento soprar em sua direção como um sopro divino que lhe mostrava o luar. É apenas o vento, nada mais! Disse ele, escorando-se sobre a janela e olhando a rua. Tenho que estudar, concluiu, retirando-se do quanto em direção a sua sala, onde uma coluna de livros o esperava.

Duas velas ele acendeu, para clarear mais o escuro que o preenchia, para fazer mais suportável a noite que o abraçava… Para clarear a casa, e escurecer a lembrança luminosa do fogo que consumiu sua família. Uma vaga lembrança o incomodava, ele havia visto uma pessoa alta andando em meio ao fogo, andando de forma a contorcer seus ossos… Andando como uma animal… Paz eu dou aos defuntos, disse ele, rezando para esquecer a agonia alheia que tornava-se sua. Tenho sorte de ainda estar vivo.

Passaram-se incontáveis minutos, os olhos de Samoht imploravam a ele uma mísera hora de sono, mas ele tinha testes a realizar daqui a poucos dias. Preciso de mais chá, disse ele indo até um outro cômodo ligado à sala de entrada, onde encontrava-se um de seus experimentos. Era um aparelho que fez na aula de alquimia, na Academia Arcana. Tal aparelho utilizava-se de um gás para acender uma pequena chama necessária para esquentar pequenas porções d’água e compostos líquidos. Samoht ajeitou seu caótico cabelo e deixou a água esquentando, ele virou-se voltando-se a sua sala e quando passou pelo portal entre os cômodos pôde ver algo estranho em sua janela, na janela de seu quarto um vulto se ascendia ao telhado.

Mas, que foi isso? Indagou Samoht, forçando sua jovem, porem doente, vista. O canto de uma coruja o relaxou, fazendo-o acreditar ser um mero quarto-escuropássaro a ascender-se e passar frente a janela de seu quarto. Uma memória da noite em que sua família morreu voltou a atormentá-lo quando novamente contemplou a lua. Desta vez, lembrou-se de uma memória perdida… Antes do incêndio Samorth brigou com seu irmão, o agrediu, feriu carne de sua carne. Seu irmão usava um colar com uma lua, era alto e magro…  Agora não passaria de cinzas. Mas o nobre Samoht queria tê-lo pedido desculpas antes de tal desastre, queria acertar as contas com o irmão que o ensinara alquimia e fora seu mestre por anos.

Ele voltou a sala onde esquentava a água, mas logo observou que a água ainda estava gelada, o fogo havia se apagado. Que é isso? Perguntou Samoht, rindo da situação,  ele novamente tentou acender o aparelho, foi então que sentiu a presença de algo esgueirando-se por suas constas, e quando se virou… Nada viu. As velas todas se apagaram repentinamente e agora, alguém batia em sua porta. Alguma visita, justo agora?

Samoht digira-se em direção a porta, as batidas tornavam-se mais intensas e mais selvagens, mais fortes, mais agressivas. Tenha calma, senhor ou senhora, eu a ouvi! gritou segurando a maçaneta da porta pronto para abrí-la. Oamri otidlam, ele ouviu a pessoa dizer, estremecendo seu coração, que pulsou forte e fez engrandecer seus assustados olhos. O jovem nobre desesperou-se, puxou uma cadeira e a escorou na porta tremendo de medo do que poderia esconder-se por detrás dela. Novamente a mesma voz animalesca o procurava, mas a batida não cessava, continuou ainda por alguns segundos, quando ele ouviu o o vidro de sua janela quebrar-se e fragmentar-se sobre o chão de seu quarto enquanto algo ou alguém adentrava.

escuridao-luzPassos, passos leves ele ouvia, mas não conseguia se mover, estava paralisado de medo. Queria que seu velho irmão estivesse vivo para defendê-lo da presença que o ameaçava. Finalmente tomou coragem, empunhou sua faca e acendeu novamente uma vela. Vou enfrentá-lo, pensou ele. Andou em direção a seu quarto mas nada encontrou, olhou para sua cama, para a janela, para a parede… Seria isso um fantasma? Algo quente e úmido caiu sobre seu ombro, e quando ele olhou para cima viu uma criatura com um sorriso mórbido, sem lábios, com dois buracos negros nas órbitas onde outrora havia olhos… Sua pele  era desbotada e suas unhas o ajudavam a prender no teto a pouca carne de seu alongado corpo nu e sem pelos.

Samoht ficou assustado, imediatamente ameaçou a criatura humanoide com uma faca enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. A criatura desprendeu-se e caiu sobre o chão, enquanto gritava Oamri otidlam! Oamri otidlam!!! Falando uma língua demoníaca irreconhecível. O jovem nobre recuou com seus olhos cheios de lágrimas, mas a criatura aproximou-se com movimentos rápidos e contorcidos, como se a cada passo a criatura quebrasse seus próprios ossos enquanto manca em passos desuniformes… Por fim, tal criatura saltou encima de Samoht rasgando sua pele e carne com as unhas e dentes, foi então que uma memória infeliz veio em sua mente despertando seu ódio…

Uma memória da noite em que as chamas consumiram sua família… Ele estava fazendo um experimento de alquimia que seu irmão o proibira por envolver líquidos tóxicos e inflamáveis. Um descuido o fez incendiar a sala e, mais tarde, a casa que morava… Os líquidos inflamáveis matam sua família e os gases dos líquidos tóxicos fizera-no perder parcialmente a memória, junto com quem mais sobrevivesse.

Samoht ficou cheio de ódio, ódio de sua existência, de brigar com seu irmão, de tê-lo desobedecido e fez de tal raiva a sua força, o nobre encharcado com o próprio sangue degolou com sua faca a criatura que o matava. Saiu debaixo de tal animal chorando pelos ferimentos em seu jovem corpo, que enchera-se de aberturas. Foi então que ele assistiu aquela criatura agonizar e debater-se até a morte, até que sua pálida pele se tingisse de vermelho… Mas assim que a criatura sossegou, ele pôde ver melhor algo que estava no pescoço do defunto… Um colar, um colar que não lhe era estranho, tal joia tinha um ar familiar, como se já o visse há anos. Era um cordão com uma lua em sua ponta. Samoht encheu seus olhos de lágrimas quando percebeu, quando fez vir em sua mente a conclusão de que matara seu próprio irmão.

Seu irmão perdera ,no fogo do incêndio e naquela nuvem de gases tóxicos, a aparência e a consciência humana que um dia tivera. Passou a viver como uma besta, mas conservara ainda, no fundo de sua mente animal, a vontade de vingar-se do pequeno irmãozinho que matara sua família, Samoht.

O que se iniciou pelas chamas, pelas chamas acabará! Disse o nobre Samoht queimando a casa, deixando as chamas consumirem os restos de seu irmão enquanto ele saia  da casa sangrando. Descansai em paz, disse ele caído na rua esperando pela morte, deixando que seu sangue caísse ao chão.

A história termina num funeral, assim como as histórias de vida de todos os mortais.

fogo

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Essa foi a primeira narração que tive o prazer de publicar no OAA. Agradeço a todos os leitores que chegaram até aqui, sou Thomas Magno, o dungeon master que lhe conta esta história. Se você gostou do conteúdo, compartilhe e divulgue pois isso ajuda muito o e faz valer a pena o meu trabalho para postar aqui no blog.

Thomas Magno