Memórias de um nobre

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Capítulo I – OLHE PARA TRÁS!

Uma vez, em tempos distantes…Um jovem nobre chamado Samoht andava pelas estreitas ruas de sua cidade, enquanto voltava da Academia Arcana. Já era meia noite, a rua era iluminada apenas por uma tocha no final dela.
Samoht observava tal luz enquanto andava serenamente. Em sua mão esquerda uma xícara de chá verde para mantê-lo acordado madrugada adentro enquanto estuda, e na mão direita um livro de metafísica. Ele ia chegando ao fim da rua observando dois caminhos, uma rua bifurcada. Sua casa ficava a direita, e para lá ele tomava seu caminho, para lá ele iria e gastaria sua madrugada inteira estudando se não fosse interrompido por um sussurro.

rua escura

Oamri otidlam, murmurou uma pessoa com uma voz mórbida, arrastada e animalesca ao pé de seu ouvido. Samoht não compreendeu e se virou para verificar do que se tratava, mas quando olhou para traz… A escuridão da noite guardava a estrada de volta para a Academia Arcana, vazia a esta hora, nada mais… Isso não acabaria assim, com ele voltando de onde veio e gastando sua preciosa noite com tolices. Ele decidiu continuar em frente.

Samoht ignorou isso e continuou andando em direção a sua casa. E quanto lá chegou, viu que a entrada de sua casa estava destrancada, teria ele esquecido sua porta aberta? Samoht era inteligente demais para cometer tal descuido. O jovem nobre desconfiou de que sua casa havia sido invadida, seria isso possível? Samoht respirou fundo e adentrou em seus aposentos, logo na entrada via sua sala de estar, ampla, com um piano e uma mesa em lados opostos do cômodo.  Após escorar sua xícara e seu livro sobre uma mesa ele empunhou uma faca antiga que herdara de sua janela góticafamília, morta em um incêndio. Quem quer que esteja esgueirando-se em meus aposentos, revele-se! Gritou ele, na esperança de que alguém o respondesse. Samoht andou em direção a seu quarto, motivado pelo ruído de sua janela. Lá ele chegou, um cômodo simples, com nada mais que sua cama e uma estante. Quando ele olhou para a janela, acima de sua cama viu repentinamente ela se abrir e o vento soprar em sua direção como um sopro divino que lhe mostrava o luar. É apenas o vento, nada mais! Disse ele, escorando-se sobre a janela e olhando a rua. Tenho que estudar, concluiu, retirando-se do quanto em direção a sua sala, onde uma coluna de livros o esperava.

Duas velas ele acendeu, para clarear mais o escuro que o preenchia, para fazer mais suportável a noite que o abraçava… Para clarear a casa, e escurecer a lembrança luminosa do fogo que consumiu sua família. Uma vaga lembrança o incomodava, ele havia visto uma pessoa alta andando em meio ao fogo, andando de forma a contorcer seus ossos… Andando como uma animal… Paz eu dou aos defuntos, disse ele, rezando para esquecer a agonia alheia que tornava-se sua. Tenho sorte de ainda estar vivo.

Passaram-se incontáveis minutos, os olhos de Samoht imploravam a ele uma mísera hora de sono, mas ele tinha testes a realizar daqui a poucos dias. Preciso de mais chá, disse ele indo até um outro cômodo ligado à sala de entrada, onde encontrava-se um de seus experimentos. Era um aparelho que fez na aula de alquimia, na Academia Arcana. Tal aparelho utilizava-se de um gás para acender uma pequena chama necessária para esquentar pequenas porções d’água e compostos líquidos. Samoht ajeitou seu caótico cabelo e deixou a água esquentando, ele virou-se voltando-se a sua sala e quando passou pelo portal entre os cômodos pôde ver algo estranho em sua janela, na janela de seu quarto um vulto se ascendia ao telhado.

Mas, que foi isso? Indagou Samoht, forçando sua jovem, porem doente, vista. O canto de uma coruja o relaxou, fazendo-o acreditar ser um mero quarto-escuropássaro a ascender-se e passar frente a janela de seu quarto. Uma memória da noite em que sua família morreu voltou a atormentá-lo quando novamente contemplou a lua. Desta vez, lembrou-se de uma memória perdida… Antes do incêndio Samorth brigou com seu irmão, o agrediu, feriu carne de sua carne. Seu irmão usava um colar com uma lua, era alto e magro…  Agora não passaria de cinzas. Mas o nobre Samoht queria tê-lo pedido desculpas antes de tal desastre, queria acertar as contas com o irmão que o ensinara alquimia e fora seu mestre por anos.

Ele voltou a sala onde esquentava a água, mas logo observou que a água ainda estava gelada, o fogo havia se apagado. Que é isso? Perguntou Samoht, rindo da situação,  ele novamente tentou acender o aparelho, foi então que sentiu a presença de algo esgueirando-se por suas constas, e quando se virou… Nada viu. As velas todas se apagaram repentinamente e agora, alguém batia em sua porta. Alguma visita, justo agora?

Samoht digira-se em direção a porta, as batidas tornavam-se mais intensas e mais selvagens, mais fortes, mais agressivas. Tenha calma, senhor ou senhora, eu a ouvi! gritou segurando a maçaneta da porta pronto para abrí-la. Oamri otidlam, ele ouviu a pessoa dizer, estremecendo seu coração, que pulsou forte e fez engrandecer seus assustados olhos. O jovem nobre desesperou-se, puxou uma cadeira e a escorou na porta tremendo de medo do que poderia esconder-se por detrás dela. Novamente a mesma voz animalesca o procurava, mas a batida não cessava, continuou ainda por alguns segundos, quando ele ouviu o o vidro de sua janela quebrar-se e fragmentar-se sobre o chão de seu quarto enquanto algo ou alguém adentrava.

escuridao-luzPassos, passos leves ele ouvia, mas não conseguia se mover, estava paralisado de medo. Queria que seu velho irmão estivesse vivo para defendê-lo da presença que o ameaçava. Finalmente tomou coragem, empunhou sua faca e acendeu novamente uma vela. Vou enfrentá-lo, pensou ele. Andou em direção a seu quarto mas nada encontrou, olhou para sua cama, para a janela, para a parede… Seria isso um fantasma? Algo quente e úmido caiu sobre seu ombro, e quando ele olhou para cima viu uma criatura com um sorriso mórbido, sem lábios, com dois buracos negros nas órbitas onde outrora havia olhos… Sua pele  era desbotada e suas unhas o ajudavam a prender no teto a pouca carne de seu alongado corpo nu e sem pelos.

Samoht ficou assustado, imediatamente ameaçou a criatura humanoide com uma faca enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. A criatura desprendeu-se e caiu sobre o chão, enquanto gritava Oamri otidlam! Oamri otidlam!!! Falando uma língua demoníaca irreconhecível. O jovem nobre recuou com seus olhos cheios de lágrimas, mas a criatura aproximou-se com movimentos rápidos e contorcidos, como se a cada passo a criatura quebrasse seus próprios ossos enquanto manca em passos desuniformes… Por fim, tal criatura saltou encima de Samoht rasgando sua pele e carne com as unhas e dentes, foi então que uma memória infeliz veio em sua mente despertando seu ódio…

Uma memória da noite em que as chamas consumiram sua família… Ele estava fazendo um experimento de alquimia que seu irmão o proibira por envolver líquidos tóxicos e inflamáveis. Um descuido o fez incendiar a sala e, mais tarde, a casa que morava… Os líquidos inflamáveis matam sua família e os gases dos líquidos tóxicos fizera-no perder parcialmente a memória, junto com quem mais sobrevivesse.

Samoht ficou cheio de ódio, ódio de sua existência, de brigar com seu irmão, de tê-lo desobedecido e fez de tal raiva a sua força, o nobre encharcado com o próprio sangue degolou com sua faca a criatura que o matava. Saiu debaixo de tal animal chorando pelos ferimentos em seu jovem corpo, que enchera-se de aberturas. Foi então que ele assistiu aquela criatura agonizar e debater-se até a morte, até que sua pálida pele se tingisse de vermelho… Mas assim que a criatura sossegou, ele pôde ver melhor algo que estava no pescoço do defunto… Um colar, um colar que não lhe era estranho, tal joia tinha um ar familiar, como se já o visse há anos. Era um cordão com uma lua em sua ponta. Samoht encheu seus olhos de lágrimas quando percebeu, quando fez vir em sua mente a conclusão de que matara seu próprio irmão.

Seu irmão perdera ,no fogo do incêndio e naquela nuvem de gases tóxicos, a aparência e a consciência humana que um dia tivera. Passou a viver como uma besta, mas conservara ainda, no fundo de sua mente animal, a vontade de vingar-se do pequeno irmãozinho que matara sua família, Samoht.

O que se iniciou pelas chamas, pelas chamas acabará! Disse o nobre Samoht queimando a casa, deixando as chamas consumirem os restos de seu irmão enquanto ele saia  da casa sangrando. Descansai em paz, disse ele caído na rua esperando pela morte, deixando que seu sangue caísse ao chão.

A história termina num funeral, assim como as histórias de vida de todos os mortais.

fogo

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Essa foi a primeira narração que tive o prazer de publicar no OAA. Agradeço a todos os leitores que chegaram até aqui, sou Thomas Magno, o dungeon master que lhe conta esta história. Se você gostou do conteúdo, compartilhe e divulgue pois isso ajuda muito o e faz valer a pena o meu trabalho para postar aqui no blog.

Thomas Magno

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7 opiniões sobre “Memórias de um nobre”

    1. Valeu Erick, muito bom saber que gostou da história de meu nobre personagem, Samoht. Estou pensando em escrever mais a respeito dele… Quem sabe esse não tenha sido o fim. Hehe, mas essas são cenas para próximos capítulos. Valeu e até mais!

  1. Tomas tomas, que historia em…….mais genial kkkkkkk meio macabra, mas merece um primeiro capítulo de um livro sobre samoth, eu curti, por favor faça uma continuação kkkkk. Sei lá um mistério nao revelado de sua família, (a skeleton in their closet( um segredo da família guardado a 7 chaves)) kkk

    1. Pois é, eu escrevi essa história em uma manhã de domingo e acabou me agradando, então eu resolvi publicar aqui. Na realidade, eu deixei o fim de “Memórias de um Nobre” em aberto para melhor “voar” a imaginação do leitor, mas eu estou começando a achar que deveria prolongar mais essa aventura nas mentes de meus caros leitores. Muito obrigado pelo apoio, até a próxima publicação.

    1. Giovanna, tenho certeza que farei mais histórias como essas, pois me agrada muito escrevê-las… Mas o que mais me agrada é ver que você e outros leitores gostaram do meu estilo de escrita. Muito obrigado pelo apoio!

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